“Quando vivia em Bruxelas morava num apartamento. No apartamento do lado moravam duas prostitutas. Elas não praticavam sexo propriamente dito, não vendiam penetração, limitavam-se a masturbá-los e assim, mas às vezes dava bronca, e elas eram maltratadas...”
“E tu teresa o que pensas da prostituição?”
Chega o primeiro pedido, uma xícara transborda de natas e chocolate, orgástico, um chá de malte e scones com doce de frutos silvestres. Uma cerveja de pressão e um white russian, vodka, tia maria e natas, calculem o que caracteriza o black, pensa teresa, siderada. procura elaborar mentalmente um discurso coerente e sedutor, mas só consegue pensar na cara de frete da puta a abrir as pernas a um velho perneta, enquanto a prótese lhe trava o movimento e a penetração torna-se penosa e suada para ambos. O rendilhado alarga-se, escoado o drama, o homem compõe-se, ela limpa-se com um pouco de papel higiénico, abre a porta do quarto da pensão e cruza-se com um homem redondo e careca. O saldo do dia é curto, 5 clientes a 20 euros, e ainda tem de pagar a percentagem da dona da pensão. Não é desta que troca de telemóvel.
Os direitos das prostitutas, prosseguem, ostentando a xícara de chá, o cálice de porto, a perna cruzada, afundados nos sofás vermelhos da sala azul do clube, pelo menos assim estariam mais seguras, teriam assistência médica e pagavam impostos, o fumo do cigarro tinge-se com o rosado turvo do tecto baixo, ridiculamente debruado de cornucópias. Sim também deviam ter uma formação primária em psicologia da solidão, mas sejamos realistas, carteira profissional já não seria mau, e um sindicato claro, para reivindicar os direitos da foda.
Mas que disparate, vem-lhe à ideia o prazer “tout court”, esse acto lascivo que nos nivela a todos, chão, chão, chão.
Putas, eu adoro putas. E quanto à sexualidade ser criativa, não sei. É? Será?
terça-feira, novembro 27, 2007
putas
terça-feira, outubro 30, 2007
aves em surdina
Neste momento as aves causam-me um misto de impressão e pena. Ouço-as chilrear em torno da casa e é como se ingenuamente anunciassem a sua extinção. Fecham-se fronteiras, as farmácias transbordam de gente precipitada, esvaziam as estantes das vacinas e anti-virais.
Não, eu não me queixo, juro que não me queixo. Mas estava convencida, porque acredito em quase tudo o que me dizem, que a dor só viria aos quarenta. Pelos vistos não foi bem assim. Há praticamente duas semanas que não me mexo, a dor entranhou-se no meu peito. Uma dor respiratória que ao expandir-se força tecidos menos flexíveis, e eu não consigo contê-la. A cabeça tem-me doído quase diariamente, avançando de uma têmpora para a outra, sem o menor pudor.
Entre pulsações. Entre pulsações. Saio de uma sala habitada por criaturas assustadoras. Havia duas ou três particularmente feias, com cara de corvo. De esgares enrugados, narizes rotundos, grandes, exageradamente curvados. O olhar é incisivo, como o de uma ave de rapina. Escondiam o rosto com as mãos devido a uma deficiência estranha que os consumia e os seus braços não abandonavam aquela posição. Pareciam-se com um boxeur antes do ataque, à defesa, preparando o golpe. Como asas desajeitadas, assim tinham as mãos, em jeito de reza ou de desculpa. Já não me recordo das outras personagens, mas foi dali que eu saí quando me tomou o assalto. Havia umas mesas longas, cadeiras desconfortáveis, com pés em metal e tampo em contraplacado, forradas a laminado de plástico, com padrões de madeira e granito baço.
As aves chegam-se ao rebordo da minha imaginação, à medida que me ganha o medo, ganha-me também a emoção. Enternecem-se como uma pena. Estremeço com a sua agitação de asas e palpitações curtas e gemidos longos. Sumidos. As gaivotas regressam a terra à medida que o mar se rodeia de mau tempo.
Perdi uma noite enquanto aqui estive.
Chovia quando saiu à rua, ao final da manhã. O chão estava coberto de folhas ocres e vermelhas, amoleciam e cheirava a pinho e eucalipto. A terra molhada. A passarada entoava cantos d’água. No caminho parou diante de uma folha, não era maior, mais comprida nem mais colorida do que qualquer uma das outras. Mas aquela prendeu o seu olhar. Apanhou-a, apesar de encharcada. Enfiou-a dentro do caderno de notas. Agradou-lhe o facto de ir provocar nódoa, espalhar-se pela superfície plana, semear areia fina e gotejar.
domingo, setembro 23, 2007
o sangue da noite sempre foi negro
sabes a amora amarga, disse languidamente, também ele tomado pela cor.
enlaçava o dedo numa mecha de cabelo, brincava com ela, roçando-a ligeiramente na orelha, sorria, os olhos cintilavam.
espera, não vais já embora, pois não?
podíamos sair daqui, podíamos ir dar uma volta, fingir que a praia é já ali e ir até lá, ficar a ouvir o mar, está tão bom tempo lá fora.
cheira a queimado, sentes? sente-se a maresia para além das cinzas.
as vozes murmuram no caminho.
perdi o talento, eduardo, perdi o talento.
segunda-feira, setembro 10, 2007
paulo - Quem está por trás da acção?
Partiu de São Paulo às 13 horas. Era sábado e o tráfego felizmente era menor do que em dia de expediente. O sol erguera-se radioso depois de uma semana filtrada de céu encoberto, doseada com chuvas rápidas, ditas pancadas.
Seguiu em direcção ao centro, acendeu um cigarro e ligou o rádio, mulher encarcerada era notícia do dia, sobrevivera milagrosamente a um embate entre um camião e um autocarro. Na noite anterior ao ver que um camião se aproximava perigosamente da sua retaguarda, soltara o cinto de segurança do seu veículo e inclinara-se para o banco do lado, o carro sumiu entre os dois gigantes, fora um milagre não ter soçobrado. Prenderam um barão da droga colombiano, foragido há mais de 2 anos, era procurado na Colômbia e nos Estados Unidos da América, vivia num apartamento de luxo, numa zona reservada de são Paulo.
Não adianta, de todas as vezes é o mesmo teatro! Nós não falamos? Mas de que raio queres tu falar, Cláudia? Expiramos qualquer prazo, e eu estou farto de conversa!
Vou até à casa de Ubatuba, se quiseres vir tens cinco minutos, caso contrário, vou sozinho, o Nelson e a Carolina estão lá de certeza.
Estou mesmo a precisar de sair daqui, já não aguento esta ladainha, o fumo, as tuas malditas alergias.
Quando acordara da manhã pressentia já o esquecimento. À noite tinha percorrido ladrilhos de pedra, e entrara num claustro com uma fonte escura no centro, embora o espaço fosse amplo, apenas uma luz vaporosa se deixava insinuar, para além das colunas estreitas que desenhavam as alas e os sólidos pilares dos cantos, havia dois anjos carrancudos num dos cantos, um segurava desinteressado uma harpa, o outro apontava para longe dali. Duas colunas se evidenciavam, a primeira envolvida por uma serpente fina e demarcada, e a segunda mais larga, quase se confundia com a cauda de um dragão. No topo da fonte, erguia-se uma ave, um quetzal de plumas particularmente longas, os olhos não eram de pedra, não podiam ser de pedra, fixavam a mão do anjo.
À medida que avançava para o centro do claustro sentia que o seu corpo lhe escapava, a respiração tornara-se imperativa, os dedos alongavam-se, mas já não reconheciam a mão.
Hesitou, apoiou o corpo pesado na parede espessa, ergueu os olhos e adivinhou através do vitral rubro a abóbada semi-circular da igreja, no pináculo que se erguia à direita, pendia um globo de vidro envolvido numa malha fina de metal.
Vislumbrava apenas a lenta e luminosa ascensão de Cristo, ao fundo as gárgulas pareciam rir perante a inevitabilidade do devir.
Não foi preciso alongar o passo, quando espreitou o seu reflexo na água funda e escura, viu que não voltaria a procurar a mão. Recuou apavorado, desencontrado no seu próprio sopro, tacteou o caminho até à saída, tomado de uma cegueira momentânea, chegado às arcadas do portal central, estacou, recuperou gradualmente a vista, mas nem espreitou a mão, avançou determinado, certo de que não seguiria mais qualquer rumo traçado. Partiria à deriva, confundiria o medo para mantê-lo desencontrado.
De manhã o corpo oscilou, a mão pesada deslocou-se e avançou sobre a parede branca, sentia-a ainda rugosa e húmida, ergueu os olhos e o sorriso da gárgula sumiu.
Não vais começar de novo com essa ladainha, malditos ladrilhos, e o seu riso soou demasiado sonoro e intoxicado. Podes sempre ficar pr’aí a lamentar-te, a lambuzar-te nessas lágrimas de crocodilo, a adorar o desperdício que foi a tua vida, os anos que me dedicaste. Paraste para pensar que me dedicaste anos de má disposição, recriminações e silêncios doentios? Anos de censura calada, aí os tens, devolvo-tos, fica com eles, a mim bastam-me os anos desolados da vida que secou.
quarta-feira, julho 25, 2007
letras de ernesto - nesse tom definitivo NÃO
Nesse tom definitivo NÃO
Sou timidamente voraz, disse-me ela uma das poucas vezes que abordamos o assunto, da mesma forma que agora me atira com um definitivamente não,
O que faço eu com este não redondo, olho a cidade velha, o céu majestoso que a acoberta, num fim de tarde ao rubro
Do vento afoito aqui sobre as muralhas, vejo a cidade velha, as últimas crianças que se abrigam da noite, uma cabrita tresmalhada, um porco pequeno sarapintado,
Ainda essa manhã seguia risonho por entre as mulatas roliças,
e que mulatas, chapam-nos com um sorriso, e abalam praça acima, rumo à igreja de cal branco.
acredito que se libertem umas feromonas ou olhares que indicam o caminho, mas às vezes é só caminho e atropela-nos..., insiste a voz dela, que agora me chega com extraordinária nitidez, como se estivesse a ouvi-la na cozinha, a cantarolar para a gata um fado desenhado pelo antunes
quarta-feira, junho 27, 2007
as cartas de emília - de quem fica
É melhor assim, pensei enquanto te afastavas. E afastaste-te.
Acredita que é tão difícil partir quanto ficar. Em todo o caso eu fiquei, deixei-me ficar, se preferires. E deixei-te partir. Que mais havia a fazer?
Claro que não levo a mal o que me dizes, como poderia, se foi essa mesma palavra que me arrebatou. Imagino que deva haver sempre um reverso da moeda, imagino que deva haver sempre quem fique, para que outros possam partir.
Chove aqui, espero que por aí a dor tenha amainado. Porque hoje chovo eu.
que estas curtas palavras te encontrem bem e preparado para o que vem a seguir.
sempre tua
Emília
as cartas de emília - flores destemperadas
Afinal foi o compasso que me arrancou da cama esta manhã. Espreitei, indignada, pela fresta da portada do quarto de dormir e reparei que um homem violeta, de ar andrógino, mais o seu séquito voltavam a esquina. Seguiam o rasto de meia dúzia de flores destemperadas que alguém derramou por ali.
Que nojo... a quantidade de gente que lambe os pés daquela miniatura, é certo, fomos postos aqui apenas para lembrar o eterno sacrifício.
Hoje aceitaria bem essa viagem. Levaria apenas o essencial numa pequena mochila (não me perguntes o quê de essencial), subiria o Tua, encontraria o Douro, e seguiria o Douro até ao regaço do Águeda. E depois o Águeda até ao ponto que o produziu.
Sigo a pé pela linha de caminho de ferro desactivada, ainda é manhã, acordei cedo com o alvoroço dos caçadores imersos em sensações primordiais, daí a razão da estranha alvorada. Ainda está frio quando atravesso a primeira ponte, que se estende sobre o Águeda, depois começo a escalada, levo um pequeno cajado improvisado na mão esquerda, a luz expande-se sobre as amendoeiras em flor, à medida que avanço sinto um cansaço maior, as vigas de madeira a as pedras entre elas fragilizam o meu passo, em contrapartida o ar é reparador, multiplicam-se as colinas, os vales, as quedas de água, atravesso túneis e sei que além me reservam novos deslumbramentos. Começo a falar sozinha, porque um lugar assim exige partilha, e também devo certificar-me que estou viva.
Estou viva só que longe daqui.
Emília
as cartas de emília - últimos dias na casa verde
Caro A.,
Porque emudeces-te, podes dizer-me?
Mesmo que não me escutes, peço-te que finjas. Finge que te importas, simula por favor alguma comoção, e tinge essa tua ausência com uma misericordiosa mentira. És tudo o que me resta neste mundo pardacento. Vê lá tu! Quem diria que um dia eu viria a dizer isto! Eu sei, vais dizer-me que já o preconizaras, mas que eu simplesmente não ouvia. A minha voz sempre tendeu a tornar a dos outros turva. Seria razoável pensar que agora o preço é este silêncio que me cobre como chumbo, a minha voz que lateja, incomunicável, dentro de mim.
Só saio de casa uma vez por mês, para um abastecimento primário. Trago o necessário para tornar a fechar as portadas atrás de mim, sem voltar a olhar para fora. Trago um frasco de cevada, o café causa-me azia e tira-me o sono, leite magro, para enganar o colestrol que excedeu todos os limites da razoabilidade, fermento e várias farinhas, que misturo um pouco ao acaso na máquina de fazer pão, congelados até à lotação da bagageira, um pacote de manteiga Becel, que continuo a detestar, e uma caixa de vinho, onde ainda encontro uma centelha passageira de fingida alegria. O senhor do quiosque guarda-me o jornal de sexta-feira e o de sábado, por causa dos suplementos, trago os cahiers de cinema que já não leio, mas não me atrevo a cancelar a encomenda, pensar que os cronistas e críticos, já devem ter morrido todos, nem sei se ainda se faz cinema... às vezes passo pelo horto a meio dessa missão que é a saída à rua, para abastecer-me de fertilizante e insecticida, porque o meu apego às plantas é tanto maior quanto o desapego a tudo o resto. Odeio os meus livros, faço todos os dias planos para virar as estantes para as paredes, e fechá-los ali, como cadáveres, e depois pegar em doses astronómicas de acrílicos e pintar todos os versos das estantes, redecorar a casa, para tentar de novo reconhecer-me nela, quem sabe...
Na semana passada veio cá a casa o Tomás, neto do meu irmão, deixou-me duas compotas que a mãe fez. Ela faz isso por fora, para ganhar mais algum... Os tempos não estão para grandes contemplações.
Bem, perdi-me. a chaleira está a apitar. Vou beberricar um chá, acender a lareira e enroscar-me na manta. Já te disse que a carlota morreu? Sim, a minha gata cinzenta, agastou-se foi o que foi... e só tinha 15 anos. Bem, acho que a vida é mesmo assim, agasta-nos, não é verdade?
Vê lá se me escreves. Sinto-me só.
emília ao sol
Está sol, dia de cores perfeitamente conjugadas para recriar primavera
Num repente de asas um melro trôpego choca violentamente contra o vidro, ouve-se um estrondo seco, Emília dá um salto súbito, desfere um ligeiro golpe na palma da mão esquerda com a tesoura certeira, cabo negro e longo.
O melro ofegante decide se desmaia, se recupera o galho que trazia na boca ou se enfrenta o destino e se despenha mais adiante.
Emília cicia naquela sua linguagem imperscrutável.
Mas a verdade é que estou certa que os pássaros a entendem, vá-se lá saber porquê. Ela não faz sentido, falhou o regresso à realidade, deixou-se ficar pela fronteira.
Queria trazer-lhe a Júlia, mas ela só vê a sombra.
Júlia, é a tua avó. Mas não vive cá.
Emília interrompe a tarefa dos recortes, a sua maior paixão nos últimos anos de reclusão. Procuro falar-lhe mas o seu olhar atravessa-me e prossegue a incessante procura.
chega o seu amigo favorito, estou em crer que o seu vulto é semelhante ao dele. E o cheiro, o ligeiro transpirar de mãos, a forma como estreita o caracol de cabelo contra a orelha
André estende-lhe a mão solícito, e ela ergue-se como uma pena, esquecendo os milhões de pequenos papéis, pequenos contos intratáveis, primaveras sem fim, rios sem nome
eu sei que ele não consegue esquecer-me, facilita é verdade, brinca comigo e fala-me com sobranceria, tenta a linha ténue que nos une, mas não pode deixar-me, não depois do que fomos
não depois do estilhaçar da carne, e daquele fusão que me confunde.
ei-lo que me vem passear, deve ser a folga dele, ou então tem a mulher fora, as miúdas devem estar na avó, a minha e a deles.