segunda-feira, setembro 10, 2007

paulo - Quem está por trás da acção?

Partiu de São Paulo às 13 horas. Era sábado e o tráfego felizmente era menor do que em dia de expediente. O sol erguera-se radioso depois de uma semana filtrada de céu encoberto, doseada com chuvas rápidas, ditas pancadas. Meteu-se no carro, porque diabo teria comprado um carro tão baixo, mal conseguia manter a cabeça erguida, sentia-se ridículo.
Seguiu em direcção ao centro, acendeu um cigarro e ligou o rádio, mulher encarcerada era notícia do dia, sobrevivera milagrosamente a um embate entre um camião e um autocarro. Na noite anterior ao ver que um camião se aproximava perigosamente da sua retaguarda, soltara o cinto de segurança do seu veículo e inclinara-se para o banco do lado, o carro sumiu entre os dois gigantes, fora um milagre não ter soçobrado. Prenderam um barão da droga colombiano, foragido há mais de 2 anos, era procurado na Colômbia e nos Estados Unidos da América, vivia num apartamento de luxo, numa zona reservada de são Paulo.
Não adianta, de todas as vezes é o mesmo teatro! Nós não falamos? Mas de que raio queres tu falar, Cláudia? Expiramos qualquer prazo, e eu estou farto de conversa!
Vou até à casa de Ubatuba, se quiseres vir tens cinco minutos, caso contrário, vou sozinho, o Nelson e a Carolina estão lá de certeza.
Estou mesmo a precisar de sair daqui, já não aguento esta ladainha, o fumo, as tuas malditas alergias.
Quando acordara da manhã pressentia já o esquecimento. À noite tinha percorrido ladrilhos de pedra, e entrara num claustro com uma fonte escura no centro, embora o espaço fosse amplo, apenas uma luz vaporosa se deixava insinuar, para além das colunas estreitas que desenhavam as alas e os sólidos pilares dos cantos, havia dois anjos carrancudos num dos cantos, um segurava desinteressado uma harpa, o outro apontava para longe dali. Duas colunas se evidenciavam, a primeira envolvida por uma serpente fina e demarcada, e a segunda mais larga, quase se confundia com a cauda de um dragão. No topo da fonte, erguia-se uma ave, um quetzal de plumas particularmente longas, os olhos não eram de pedra, não podiam ser de pedra, fixavam a mão do anjo.
À medida que avançava para o centro do claustro sentia que o seu corpo lhe escapava, a respiração tornara-se imperativa, os dedos alongavam-se, mas já não reconheciam a mão.
Hesitou, apoiou o corpo pesado na parede espessa, ergueu os olhos e adivinhou através do vitral rubro a abóbada semi-circular da igreja, no pináculo que se erguia à direita, pendia um globo de vidro envolvido numa malha fina de metal.
Vislumbrava apenas a lenta e luminosa ascensão de Cristo, ao fundo as gárgulas pareciam rir perante a inevitabilidade do devir.
Não foi preciso alongar o passo, quando espreitou o seu reflexo na água funda e escura, viu que não voltaria a procurar a mão. Recuou apavorado, desencontrado no seu próprio sopro, tacteou o caminho até à saída, tomado de uma cegueira momentânea, chegado às arcadas do portal central, estacou, recuperou gradualmente a vista, mas nem espreitou a mão, avançou determinado, certo de que não seguiria mais qualquer rumo traçado. Partiria à deriva, confundiria o medo para mantê-lo desencontrado.
De manhã o corpo oscilou, a mão pesada deslocou-se e avançou sobre a parede branca, sentia-a ainda rugosa e húmida, ergueu os olhos e o sorriso da gárgula sumiu.
Não vais começar de novo com essa ladainha, malditos ladrilhos, e o seu riso soou demasiado sonoro e intoxicado. Podes sempre ficar pr’aí a lamentar-te, a lambuzar-te nessas lágrimas de crocodilo, a adorar o desperdício que foi a tua vida, os anos que me dedicaste. Paraste para pensar que me dedicaste anos de má disposição, recriminações e silêncios doentios? Anos de censura calada, aí os tens, devolvo-tos, fica com eles, a mim bastam-me os anos desolados da vida que secou.

Como vês cabe sempre uma acusação no regresso da outra.

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