quarta-feira, março 11, 2009

compro!

O homem sai de casa pouco antes de entardecer, as gaivotas entoam cânticos em dó menor. A porta fecha-se atrás de si com um estrondo seco.

Caminha, a sola dos sapatos reverbera contra o solo, o homem caminha, a cabeça ligeiramente pendida para a frente, a escrutinar o passo, pesando a sua espessura contra chão, é um exercício rigoroso, pois também evita pisar as linhas que fecham os paralelos e os dejectos dos cachorros que curiosamente ninguém viu passar ali.

Olha para o relógio são 17h e 43, o leilão é num apartamento próximo daquele lugar, apressa o passo vira a esquina compra o jornal no ardina da direita e abre-o de imediato na página dos anúncios, buldogues franceses a 1000 euros, adoptem-me sou muito meiguinho e arrancaram-me uma orelha em cachorro, casa devoluta aceita-se oferta

Transpira, o tempo está incerto mas na ordem das humidades quentes, tira do lado esquerdo do bolso de trás das calças um lenço branco de proporções exageradas, passa-o pelo rosto e devolve-o ao buraco.

Sobe as escadas estreitas de par em par, conduzem ao terceiro piso de um prédio antigo, a porta está entreaberta, cruza-a e entorna de novo o rosto, avança por entre os pés da meia dúzia de pessoas que circula ali, procura o corredor e os retratos nele, ali está, tingido de um verde escuro e difuso, ladeado por duas estantes repletas de enciclopédias, compêndios de música e de medicina, ao fundo uma vitrina cheia de bailarinas - tules, pontas, rosas

Continua a suar em bica, razão pela qual fecha inconscientemente a licitação e arrecada uma ventoinha metalizada pela módica quantia de 25 euros.