terça-feira, outubro 30, 2007

aves em surdina

A gripe ganhou destaque no jornal, ronda as páginas vinte e seis e vinte e sete. Hoje saltou para as primeiras para uma explicação breve mas devastadora. Como funciona o mecanismo de actuação do vírus. Aloja-se numa célula, transforma-a e passa a ser ela o instrumento da sua difusão.

Neste momento as aves causam-me um misto de impressão e pena. Ouço-as chilrear em torno da casa e é como se ingenuamente anunciassem a sua extinção. Fecham-se fronteiras, as farmácias transbordam de gente precipitada, esvaziam as estantes das vacinas e anti-virais.

Não, eu não me queixo, juro que não me queixo. Mas estava convencida, porque acredito em quase tudo o que me dizem, que a dor só viria aos quarenta. Pelos vistos não foi bem assim. Há praticamente duas semanas que não me mexo, a dor entranhou-se no meu peito. Uma dor respiratória que ao expandir-se força tecidos menos flexíveis, e eu não consigo contê-la. A cabeça tem-me doído quase diariamente, avançando de uma têmpora para a outra, sem o menor pudor.

Entre pulsações. Entre pulsações. Saio de uma sala habitada por criaturas assustadoras. Havia duas ou três particularmente feias, com cara de corvo. De esgares enrugados, narizes rotundos, grandes, exageradamente curvados. O olhar é incisivo, como o de uma ave de rapina. Escondiam o rosto com as mãos devido a uma deficiência estranha que os consumia e os seus braços não abandonavam aquela posição. Pareciam-se com um boxeur antes do ataque, à defesa, preparando o golpe. Como asas desajeitadas, assim tinham as mãos, em jeito de reza ou de desculpa. Já não me recordo das outras personagens, mas foi dali que eu saí quando me tomou o assalto. Havia umas mesas longas, cadeiras desconfortáveis, com pés em metal e tampo em contraplacado, forradas a laminado de plástico, com padrões de madeira e granito baço.

As aves chegam-se ao rebordo da minha imaginação, à medida que me ganha o medo, ganha-me também a emoção. Enternecem-se como uma pena. Estremeço com a sua agitação de asas e palpitações curtas e gemidos longos. Sumidos. As gaivotas regressam a terra à medida que o mar se rodeia de mau tempo.

Perdi uma noite enquanto aqui estive.

Chovia quando saiu à rua, ao final da manhã. O chão estava coberto de folhas ocres e vermelhas, amoleciam e cheirava a pinho e eucalipto. A terra molhada. A passarada entoava cantos d’água. No caminho parou diante de uma folha, não era maior, mais comprida nem mais colorida do que qualquer uma das outras. Mas aquela prendeu o seu olhar. Apanhou-a, apesar de encharcada. Enfiou-a dentro do caderno de notas. Agradou-lhe o facto de ir provocar nódoa, espalhar-se pela superfície plana, semear areia fina e gotejar.

Faço o que posso, sussurra aos seres que se vão reunindo em torno de si, aquela curta audiência que a ouve curiosa à medida que se confronta distraidamente com “o que é que eu ia dizer?”. Que coisa magnífica terá ficado por dizer, por fazer…