Ao contrário de todos os outros ela sentou-se diante de mim, de costas voltadas para os demais. A boca dela era um botão vermelho bem recortado, trazia sobre os ombros um echarpe igualmente rubro e o cabelo estendia-se longo e sedoso como um manto. As sobrancelhas eram linhas largas e firmavam um sorriso amplo. No lugar de um telemóvel abriu um caderno de capa azul e sem hesitações com uma bic laranja de escrita fina avançou pela folha branca desfiando o meu espanto numa escrita certa e bonita. Finda a folha fechou o caderno, pegou num livrinho vermelho e mais não me olhou, deixando-me dormida a fiar novos espantos.
terça-feira, novembro 13, 2018
Maria
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Chamo-me Maria, como a minha avó. Ela tinha perto de 60 anos quando morreu,
não cheguei a conhecê-la, no momento em que partia chegava eu. Trago o seu nome
e, sem querer, a sua sede e o desconforto também. A raiva que sobrou dos outros.
Maria era amarga todos os dias, odiava os filhos, a todos com igual proporção e
violência: um bando de putos ranhosos e borrados que rondavam por ali com as
galinhas, e que lhe tinham sido arrancados a ferros à conta sucessiva dos
estupros. Maria nunca, mas nunca desejou o homem que lhe foi aplicado, soma
pequena das propriedades da aldeia que assim se multiplicaram: a família. Na
véspera da morte dele levou-lhe à cabeceira a última refeição, uma cebola crua
com sal, e regressou ao banco da cozinha onde adormeceu com a cabeça entornada junto da caneca.
sábado, novembro 03, 2018
agora
agora eu tenho de aprender
a viver só, agora eu tenho de olhar para estes paredes e não as ter como estrangeiras,
agora tenho de guardar a criança que chora, ouvir a velha que prega ao som da
música de uma viola, agora tenho de aprender a cobrir o frio que já sinto, sentir
que fará o meu inverno, agora tenho de comprar uma bilha de gás e lavar a pilha
de louça e fazer a volta dos caixotes e calçar as pantufas aprender a tricotar assentar
arraial nos últimos tijolos agora eu tenho de assentar tijolos e garantir que
se tem a estante agora eu tenho de largar as redes que não me seguram e só
me ensinam a mentira e a ser de mentira ser de mentira agora eu ser de mentira
e largar agora eu mentira largar agora
sexta-feira, novembro 02, 2018
Tânia
- Tânia!
- Como se chama?
Sorri-me pela primeira vez.
- A senhora é bonita demais para não pintar o cabelo.
- 10 €.
- Quanto é?
Quando me levanto, espreito de novo as marcas da noite nos pés dos olhos.
Procura mostrar-me o resultado através de um espelho ridículo embora eu tivesse preferido não olhar.
Sacode os últimos cabelos dos meus ombros.
Olha-me com um ar um pouco horrorizado.
- Prefiro deixá-lo embranquecer, digo com pouca determinação. Coro estupidamente, se ela insistir muito ainda me convence...
- Não pinta o cabelo?
Que mamas lindas tens, redondas brancas e macias, penso, quando ela se inclina para me ajeitar a franja.
Aqui não se fia a ninguém, grita a parede, e um sapo gordo de barro espreita sob a mesinha da entrada, lá fora corre a marcha fúnebre que desaguou da igreja e desaparece no espelho onde encontro as olheiras fundas, o meu corpo balança ligeiramente às mãos de um secador impiedoso que me esquenta as orelhas.
És cá das minhas, miúda, cara fechada, nenhuma palavra, e ela segura-me a cabeça com firmeza, quatro ensaboadelas rigorosas que quase me partem o pescoço contra aquela bacia que parece uma câmara de tortura.
- Sim, sem um sorriso, sente-se.
- Bom dia, é possível cortar o cabelo?
- Como se chama?
Sorri-me pela primeira vez.
- A senhora é bonita demais para não pintar o cabelo.
- 10 €.
- Quanto é?
Quando me levanto, espreito de novo as marcas da noite nos pés dos olhos.
Procura mostrar-me o resultado através de um espelho ridículo embora eu tivesse preferido não olhar.
Sacode os últimos cabelos dos meus ombros.
Olha-me com um ar um pouco horrorizado.
- Prefiro deixá-lo embranquecer, digo com pouca determinação. Coro estupidamente, se ela insistir muito ainda me convence...
- Não pinta o cabelo?
Que mamas lindas tens, redondas brancas e macias, penso, quando ela se inclina para me ajeitar a franja.
Aqui não se fia a ninguém, grita a parede, e um sapo gordo de barro espreita sob a mesinha da entrada, lá fora corre a marcha fúnebre que desaguou da igreja e desaparece no espelho onde encontro as olheiras fundas, o meu corpo balança ligeiramente às mãos de um secador impiedoso que me esquenta as orelhas.
És cá das minhas, miúda, cara fechada, nenhuma palavra, e ela segura-me a cabeça com firmeza, quatro ensaboadelas rigorosas que quase me partem o pescoço contra aquela bacia que parece uma câmara de tortura.
- Sim, sem um sorriso, sente-se.
- Bom dia, é possível cortar o cabelo?
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