quarta-feira, junho 27, 2007

as cartas de emília - de quem fica

Quando nasceu a berenice pensei que te finava definitivamente da minha vontade.

É melhor assim, pensei enquanto te afastavas. E afastaste-te.
Acredita que é tão difícil partir quanto ficar. Em todo o caso eu fiquei, deixei-me ficar, se preferires. E deixei-te partir. Que mais havia a fazer?
Claro que não levo a mal o que me dizes, como poderia, se foi essa mesma palavra que me arrebatou. Imagino que deva haver sempre um reverso da moeda, imagino que deva haver sempre quem fique, para que outros possam partir.
Chove aqui, espero que por aí a dor tenha amainado. Porque hoje chovo eu.

que estas curtas palavras te encontrem bem e preparado para o que vem a seguir.

sempre tua
Emília

as cartas de emília - flores destemperadas

Caro A,

Afinal foi o compasso que me arrancou da cama esta manhã. Espreitei, indignada, pela fresta da portada do quarto de dormir e reparei que um homem violeta, de ar andrógino, mais o seu séquito voltavam a esquina. Seguiam o rasto de meia dúzia de flores destemperadas que alguém derramou por ali.
Que nojo... a quantidade de gente que lambe os pés daquela miniatura, é certo, fomos postos aqui apenas para lembrar o eterno sacrifício.

Hoje aceitaria bem essa viagem. Levaria apenas o essencial numa pequena mochila (não me perguntes o quê de essencial), subiria o Tua, encontraria o Douro, e seguiria o Douro até ao regaço do Águeda. E depois o Águeda até ao ponto que o produziu.

Sigo a pé pela linha de caminho de ferro desactivada, ainda é manhã, acordei cedo com o alvoroço dos caçadores imersos em sensações primordiais, daí a razão da estranha alvorada. Ainda está frio quando atravesso a primeira ponte, que se estende sobre o Águeda, depois começo a escalada, levo um pequeno cajado improvisado na mão esquerda, a luz expande-se sobre as amendoeiras em flor, à medida que avanço sinto um cansaço maior, as vigas de madeira a as pedras entre elas fragilizam o meu passo, em contrapartida o ar é reparador, multiplicam-se as colinas, os vales, as quedas de água, atravesso túneis e sei que além me reservam novos deslumbramentos. Começo a falar sozinha, porque um lugar assim exige partilha, e também devo certificar-me que estou viva.

Estou viva só que longe daqui.

Emília

as cartas de emília - últimos dias na casa verde

Caro A.,

Porque emudeces-te, podes dizer-me?
Mesmo que não me escutes, peço-te que finjas. Finge que te importas, simula por favor alguma comoção, e tinge essa tua ausência com uma misericordiosa mentira. És tudo o que me resta neste mundo pardacento. Vê lá tu! Quem diria que um dia eu viria a dizer isto! Eu sei, vais dizer-me que já o preconizaras, mas que eu simplesmente não ouvia. A minha voz sempre tendeu a tornar a dos outros turva. Seria razoável pensar que agora o preço é este silêncio que me cobre como chumbo, a minha voz que lateja, incomunicável, dentro de mim.

Só saio de casa uma vez por mês, para um abastecimento primário. Trago o necessário para tornar a fechar as portadas atrás de mim, sem voltar a olhar para fora. Trago um frasco de cevada, o café causa-me azia e tira-me o sono, leite magro, para enganar o colestrol que excedeu todos os limites da razoabilidade, fermento e várias farinhas, que misturo um pouco ao acaso na máquina de fazer pão, congelados até à lotação da bagageira, um pacote de manteiga Becel, que continuo a detestar, e uma caixa de vinho, onde ainda encontro uma centelha passageira de fingida alegria. O senhor do quiosque guarda-me o jornal de sexta-feira e o de sábado, por causa dos suplementos, trago os cahiers de cinema que já não leio, mas não me atrevo a cancelar a encomenda, pensar que os cronistas e críticos, já devem ter morrido todos, nem sei se ainda se faz cinema... às vezes passo pelo horto a meio dessa missão que é a saída à rua, para abastecer-me de fertilizante e insecticida, porque o meu apego às plantas é tanto maior quanto o desapego a tudo o resto. Odeio os meus livros, faço todos os dias planos para virar as estantes para as paredes, e fechá-los ali, como cadáveres, e depois pegar em doses astronómicas de acrílicos e pintar todos os versos das estantes, redecorar a casa, para tentar de novo reconhecer-me nela, quem sabe...

Na semana passada veio cá a casa o Tomás, neto do meu irmão, deixou-me duas compotas que a mãe fez. Ela faz isso por fora, para ganhar mais algum... Os tempos não estão para grandes contemplações.

Bem, perdi-me. a chaleira está a apitar. Vou beberricar um chá, acender a lareira e enroscar-me na manta. Já te disse que a carlota morreu? Sim, a minha gata cinzenta, agastou-se foi o que foi... e só tinha 15 anos. Bem, acho que a vida é mesmo assim, agasta-nos, não é verdade?

Vê lá se me escreves. Sinto-me só.

Emília

emília ao sol

Está sol, dia de cores perfeitamente conjugadas para recriar primavera
Num repente de asas um melro trôpego choca violentamente contra o vidro, ouve-se um estrondo seco, Emília dá um salto súbito, desfere um ligeiro golpe na palma da mão esquerda com a tesoura certeira, cabo negro e longo.
O melro ofegante decide se desmaia, se recupera o galho que trazia na boca ou se enfrenta o destino e se despenha mais adiante.
Emília cicia naquela sua linguagem imperscrutável.

Mas a verdade é que estou certa que os pássaros a entendem, vá-se lá saber porquê. Ela não faz sentido, falhou o regresso à realidade, deixou-se ficar pela fronteira.

Queria trazer-lhe a Júlia, mas ela só vê a sombra.
Júlia, é a tua avó. Mas não vive cá.

Emília interrompe a tarefa dos recortes, a sua maior paixão nos últimos anos de reclusão. Procuro falar-lhe mas o seu olhar atravessa-me e prossegue a incessante procura.

chega o seu amigo favorito, estou em crer que o seu vulto é semelhante ao dele. E o cheiro, o ligeiro transpirar de mãos, a forma como estreita o caracol de cabelo contra a orelha

André estende-lhe a mão solícito, e ela ergue-se como uma pena, esquecendo os milhões de pequenos papéis, pequenos contos intratáveis, primaveras sem fim, rios sem nome

eu sei que ele não consegue esquecer-me, facilita é verdade, brinca comigo e fala-me com sobranceria, tenta a linha ténue que nos une, mas não pode deixar-me, não depois do que fomos

não depois do estilhaçar da carne, e daquele fusão que me confunde.

ei-lo que me vem passear, deve ser a folga dele, ou então tem a mulher fora, as miúdas devem estar na avó, a minha e a deles.