Está sol, dia de cores perfeitamente conjugadas para recriar primavera
Num repente de asas um melro trôpego choca violentamente contra o vidro, ouve-se um estrondo seco, Emília dá um salto súbito, desfere um ligeiro golpe na palma da mão esquerda com a tesoura certeira, cabo negro e longo.
O melro ofegante decide se desmaia, se recupera o galho que trazia na boca ou se enfrenta o destino e se despenha mais adiante.
Emília cicia naquela sua linguagem imperscrutável.
Mas a verdade é que estou certa que os pássaros a entendem, vá-se lá saber porquê. Ela não faz sentido, falhou o regresso à realidade, deixou-se ficar pela fronteira.
Queria trazer-lhe a Júlia, mas ela só vê a sombra.
Júlia, é a tua avó. Mas não vive cá.
Emília interrompe a tarefa dos recortes, a sua maior paixão nos últimos anos de reclusão. Procuro falar-lhe mas o seu olhar atravessa-me e prossegue a incessante procura.
chega o seu amigo favorito, estou em crer que o seu vulto é semelhante ao dele. E o cheiro, o ligeiro transpirar de mãos, a forma como estreita o caracol de cabelo contra a orelha
André estende-lhe a mão solícito, e ela ergue-se como uma pena, esquecendo os milhões de pequenos papéis, pequenos contos intratáveis, primaveras sem fim, rios sem nome
eu sei que ele não consegue esquecer-me, facilita é verdade, brinca comigo e fala-me com sobranceria, tenta a linha ténue que nos une, mas não pode deixar-me, não depois do que fomos
não depois do estilhaçar da carne, e daquele fusão que me confunde.
ei-lo que me vem passear, deve ser a folga dele, ou então tem a mulher fora, as miúdas devem estar na avó, a minha e a deles.
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