Caro A.,
Porque emudeces-te, podes dizer-me?
Mesmo que não me escutes, peço-te que finjas. Finge que te importas, simula por favor alguma comoção, e tinge essa tua ausência com uma misericordiosa mentira. És tudo o que me resta neste mundo pardacento. Vê lá tu! Quem diria que um dia eu viria a dizer isto! Eu sei, vais dizer-me que já o preconizaras, mas que eu simplesmente não ouvia. A minha voz sempre tendeu a tornar a dos outros turva. Seria razoável pensar que agora o preço é este silêncio que me cobre como chumbo, a minha voz que lateja, incomunicável, dentro de mim.
Só saio de casa uma vez por mês, para um abastecimento primário. Trago o necessário para tornar a fechar as portadas atrás de mim, sem voltar a olhar para fora. Trago um frasco de cevada, o café causa-me azia e tira-me o sono, leite magro, para enganar o colestrol que excedeu todos os limites da razoabilidade, fermento e várias farinhas, que misturo um pouco ao acaso na máquina de fazer pão, congelados até à lotação da bagageira, um pacote de manteiga Becel, que continuo a detestar, e uma caixa de vinho, onde ainda encontro uma centelha passageira de fingida alegria. O senhor do quiosque guarda-me o jornal de sexta-feira e o de sábado, por causa dos suplementos, trago os cahiers de cinema que já não leio, mas não me atrevo a cancelar a encomenda, pensar que os cronistas e críticos, já devem ter morrido todos, nem sei se ainda se faz cinema... às vezes passo pelo horto a meio dessa missão que é a saída à rua, para abastecer-me de fertilizante e insecticida, porque o meu apego às plantas é tanto maior quanto o desapego a tudo o resto. Odeio os meus livros, faço todos os dias planos para virar as estantes para as paredes, e fechá-los ali, como cadáveres, e depois pegar em doses astronómicas de acrílicos e pintar todos os versos das estantes, redecorar a casa, para tentar de novo reconhecer-me nela, quem sabe...
Na semana passada veio cá a casa o Tomás, neto do meu irmão, deixou-me duas compotas que a mãe fez. Ela faz isso por fora, para ganhar mais algum... Os tempos não estão para grandes contemplações.
Bem, perdi-me. a chaleira está a apitar. Vou beberricar um chá, acender a lareira e enroscar-me na manta. Já te disse que a carlota morreu? Sim, a minha gata cinzenta, agastou-se foi o que foi... e só tinha 15 anos. Bem, acho que a vida é mesmo assim, agasta-nos, não é verdade?
Vê lá se me escreves. Sinto-me só.
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