Caro A,
Afinal foi o compasso que me arrancou da cama esta manhã. Espreitei, indignada, pela fresta da portada do quarto de dormir e reparei que um homem violeta, de ar andrógino, mais o seu séquito voltavam a esquina. Seguiam o rasto de meia dúzia de flores destemperadas que alguém derramou por ali.
Que nojo... a quantidade de gente que lambe os pés daquela miniatura, é certo, fomos postos aqui apenas para lembrar o eterno sacrifício.
Hoje aceitaria bem essa viagem. Levaria apenas o essencial numa pequena mochila (não me perguntes o quê de essencial), subiria o Tua, encontraria o Douro, e seguiria o Douro até ao regaço do Águeda. E depois o Águeda até ao ponto que o produziu.
Sigo a pé pela linha de caminho de ferro desactivada, ainda é manhã, acordei cedo com o alvoroço dos caçadores imersos em sensações primordiais, daí a razão da estranha alvorada. Ainda está frio quando atravesso a primeira ponte, que se estende sobre o Águeda, depois começo a escalada, levo um pequeno cajado improvisado na mão esquerda, a luz expande-se sobre as amendoeiras em flor, à medida que avanço sinto um cansaço maior, as vigas de madeira a as pedras entre elas fragilizam o meu passo, em contrapartida o ar é reparador, multiplicam-se as colinas, os vales, as quedas de água, atravesso túneis e sei que além me reservam novos deslumbramentos. Começo a falar sozinha, porque um lugar assim exige partilha, e também devo certificar-me que estou viva.
Estou viva só que longe daqui.
Emília
Sem comentários:
Enviar um comentário