não sei dizer-te quando enlouqueci, porque
quando me apercebi já era louca. primeiro fui perdendo o medo, depois a vontade
de o desenhar, depois perdi a idade e perdi também a faculdade de me olhar, como
se me desintegrasse e tornasse a cada passo mais etérea
ao mesmo tempo iam-me detendo mais os
pormenores, os sons que me chegavam da rua vinham aumentados e traziam cada um
a sua história, a criança que gritava no jardim, o saxofonista que tocava amplificado junto da porta lateral da igreja das luzes apagadas, o
recepcionista do hotel que à noite se transformava em drag queen e fazia
performances no burlesque onde nos serviam bebidas extasiantes que nos levavam
a subir ao pequeno palco para nos representarmos.
ao mesmo tempo enamorava-me de cem homens e
odiava-os por me tomarem o tempo de me reaprender, ao mesmo tempo procurava
sentir como funcionava a minha estrutura por dentro, concentrava-me e sentia o
sangue a subir-me às têmporas, concentrava-me e ouvia-as a latejar,
concentrava-me e ao grito fino da criança juntava-se outro e brincavam no
parque com uma bola que não era redonda enquanto na esplanada os homens bebiam
uma cerveja pouco fresca e abria-se a porta de um camião e saiam de lá
desfilando metades de porco e no hotel
tentavam abrir-me a porta do quarto e quando lá
chegava arrancada pelo barulho o homem voltava-se para mim e dizia-me, como
conseguiu abrir essa porta se eu é que tenho a chave e estou aqui do lado de
fora e eu, não fora ter enlouquecido, sairia desconcertada abotoando as calças
à pressa, porque se têm de abotoar a algum lado, e melhor à pressa do que a uma
casa qualquer, quem quer uma casa onde se abotoar?
Eu tinha comprado as botas ao estilo militar
porque queria introduzir uma disciplina rigorosa e do tipo masculino, posso
dizer assim, um louco não observa políticas nem regras sociais, desconhece
preconceitos e cria outros.
Com o tempo até as palavras se desacertaram num
pretérito imperfeito futuro.