terça-feira, outubro 30, 2018

súplica








Esta manhã visitei a igreja, finalmente atrevi-me a entrar, três quatro velhos rezavam dentro, ajoelhados como manda a cartilha, eu sentei-me porque não sei rezar. Cheirava a detergente barato, é mais clara do que escura a igreja erguida à nossa senhora da assunção, e uma faixa de azulejos verdes e mimosos cobre as paredes laterais. Verti uma lágrima porque já a trazia ali de volta do nervo, queria verter mais, mas não sei rezar e sentia o peso dos velhos nos meus joelhos.



domingo, outubro 28, 2018

não sei





não sei dizer-te quando enlouqueci, porque quando me apercebi já era louca. primeiro fui perdendo o medo, depois a vontade de o desenhar, depois perdi a idade e perdi também a faculdade de me olhar, como se me desintegrasse e tornasse a cada passo mais etérea

ao mesmo tempo iam-me detendo mais os pormenores, os sons que me chegavam da rua vinham aumentados e traziam cada um a sua história, a criança que gritava no jardim, o saxofonista que tocava amplificado junto da porta lateral da igreja das luzes apagadas, o recepcionista do hotel que à noite se transformava em drag queen e fazia performances no burlesque onde nos serviam bebidas extasiantes que nos levavam a subir ao pequeno palco para nos representarmos.

ao mesmo tempo enamorava-me de cem homens e odiava-os por me tomarem o tempo de me reaprender, ao mesmo tempo procurava sentir como funcionava a minha estrutura por dentro, concentrava-me e sentia o sangue a subir-me às têmporas, concentrava-me e ouvia-as a latejar, concentrava-me e ao grito fino da criança juntava-se outro e brincavam no parque com uma bola que não era redonda enquanto na esplanada os homens bebiam uma cerveja pouco fresca e abria-se a porta de um camião e saiam de lá desfilando metades de porco e no hotel

tentavam abrir-me a porta do quarto e quando lá chegava arrancada pelo barulho o homem voltava-se para mim e dizia-me, como conseguiu abrir essa porta se eu é que tenho a chave e estou aqui do lado de fora e eu, não fora ter enlouquecido, sairia desconcertada abotoando as calças à pressa, porque se têm de abotoar a algum lado, e melhor à pressa do que a uma casa qualquer, quem quer uma casa onde se abotoar?

Eu tinha comprado as botas ao estilo militar porque queria introduzir uma disciplina rigorosa e do tipo masculino, posso dizer assim, um louco não observa políticas nem regras sociais, desconhece preconceitos e cria outros.

Com o tempo até as palavras se desacertaram num pretérito imperfeito futuro.

quarta-feira, outubro 24, 2018

Ave



Ave era uma mulher calada, havia quem a dissesse muda mas isso até a acomodava. Sabia-se muito pouco dela, quase como se esse fosse o seu traço de carácter, a não ser que fiava conchas de maresias e que colecionava lixo do mar. Enchia laboriosamente pequenos contentores, distribuindo a safra por tamanhos, formas e cores e tudo aquilo cheirava a sentido adiado, mas ela sorria a cada resgate encontrado. Um dia deu-se o fenómeno da economia circular e no dia depois a praia encheu-se de gente e levaram todo o lixo colorido em elevados contentores, e no dia depois e no dia depois. De Ave não se soube mais nada.

yes



Aqui há uns dias fui ali ao café e depois segui para o mercadinho que fica na esquina para aviar umas compras básicas, café, vinho e duas cebolas. O mercadinho é estreito como tudo, artigos a desafiar a altura ao longo de três corredores curtos em que só cabe uma pessoa, e apertamo-nos com as compras no cesto para atrapalhar ainda mais a pequenez enquanto espreitamos a fila para a caixa que é do tamanho do lugar e ainda curva. lá fora do outro lado quase junto ao mar ficam sentados os velhos enquanto as mulheres aviam. Não são especialmente simpáticos cá no bairro, falam alto porque aqui é estreito e é preciso altura. Entrou um velho e vira-se para o patrão, bem alto, estás branco Manel, tens de sair mais daqui, e uma velha mais atrás de olhos rasgados de riso, é falta de fazer o amor, e é a vez dos meus olhos se rasgarem, o raio da velha!

segunda-feira, outubro 22, 2018

a dor


A dor é bruta, com o passar dos dias que se fizeram anos aprendi a ludibriá-la e a viver com ela. Dor vai! E ela ia. Dor fica, ela ficava. Dor senta e eu sentava.

sexta-feira, outubro 05, 2018

aquele momento em que interrompes a mastigação

Acabo de me lembrar que há uns dias atrás inadvertidamente comi larvas. Eram brancas e pequeninas, não teriam mais que um centímetro de comprimento, dois milímetros de diâmetro e não o fiz para imitar nenhuma prima dona testando a elasticidade da mente sobra-me aliás apenas a repugnância desse instante mas não foi exacto o que senti porque naturalmente invadiu-me um nojo imenso, maior do que o nojo que se sente quando na língua se enrola um cabelo que nos chega de um prato confecionado em restaurante de cuja cozinha se tem apenas suspeita e onde operam criaturas suadas e vingativas. mas não foi exacto o nojo que senti, não foi imediato. Encontrava-me só sem pensamentos e hesitei e essa hesitação fez crescer o nojo, mas o nojo não é exacto. A hesitação fez-me questionar a natureza do nojo. deveria continuar a comer, como se nada fosse, ignorando aqueles pequenos seres na superfície côncava do peito do frango e que eu não teria identificado não fora ter surpreendido um fora do lugar? Chegara-se à bordadura do prato numa tentativa vã de resistir à cozedura. agonizaram no microondas, num minuto, possivelmente menos, mas tendo em conta que nem um centímetro contavam deve ter sido muito, na minha boca terão durado um pouco mais. Mas não é exacta a visão, a que não quis tornar, porque a afirmação da coisa serviria apenas para exasperar a repugnância e ampliar a frustração, mas de onde me vem o nojo, porque ninguém sabe, ninguém me olha, e se eu não o disser então as larvas nunca existiram, e como enganei o olhar podem muito bem ter sido apenas fruto da minha imaginação, que confesso é curta, como a larva, pouco menos de um centímetro, ela inteira. mas a imagem das larvas ficou. uma delas na bordadura do prato. 

quinta-feira, outubro 04, 2018

sonho da boneca de trapos



princípio do sonho da boneca de trapos perdão talvez não seja bem o princípio talvez seja o final do sonho ou apenas o princípio do fim tanto mais que com o passar das horas a memória tropeça porra não importa é o princípio deste relato na terceira linha há qualquer coisa naquele quarto escuro qualquer coisa de hostil junto do que pode ser uma janela ou um armário há uma presença maligna embora tenha a forma de uma criança embora possa ser eu e concluo mais tarde que sou porque me encontro nela e assisto os meus olhos observam (câmara subjectiva) e sinto o medo a crescer dentro e sinto que o medo me agita e ao meu corpo também por consequência como entidades separadas  sempre tive muito medo dessas coisas malignas que se escondem e que não compreendemos bem que podem tomar a forma de qualquer coisa na penumbra mas na verdade ainda estou no sonho e embora o corpo reclame já a saída avanço sinto que aquela presença má se move sub-reptícia e sinto o medo latejante tão sub-reptício quanto ela aproximo-me da cama e ali está a boneca de trapos da minha infância oferta da Nani é na verdade a boneca da minha irmã igual à minha mas com um padrão de vestido e chapéu a condizer distinto de um verde pontuado por pequeninas flores silvestres enquanto a outra vestia púrpura com flores largas exibicionistas de salientar que nunca me agradaria a boneca que me fosse confiada mas sempre a outra e ali está a boneca cuidadosamente encostada às almofadas inerte e a sua visão causa-me um calafrio não era suposto encontrar-te nesta história que não serve a minha infância a menos que tenham sido convocados os medos mais antigos aqueles que me fazem ainda hoje espreitar por trás do ombro e pensar que não devia estar assim de costas voltadas para o mundo tendo apenas a parede branca diante talvez não muito branca mas ainda assim mais branca do que a penumbra atrás de mim onde se esconde o mundo e repara que o sonho já vai miúdo e a boneca não lembro mais ao certo qual a posição em que a encontro e nem tão pouco me apercebo como veio parar-me às mãos e como a olho com ressentimento e espanto e medo maldito medo que aqui não encontra lágrimas é um medo fundo lamacento ai a minha meninice ao olhá-la cresço em perversidade como se eu própria fosse a boneca e agora que a tenho em meu poder decido sentá-la na barra aos pés da cama e há um espelho do outro lado e na verdade só lá vejo a boneca e levanto-lhe o vestido e procuro abrir-lhe as pernas para descobrir o que ali se esconde e a maldita resiste-me oferece-me uma resistência que me apavora e tremo e o medo agora tem o tamanho de um quarto