princípio do sonho
da boneca de trapos perdão talvez não seja bem o princípio talvez seja o final do
sonho ou apenas o princípio do fim tanto mais que com o passar das horas a memória
tropeça porra não importa é o princípio deste relato na terceira linha há
qualquer coisa naquele quarto escuro qualquer coisa de hostil junto do que pode
ser uma janela ou um armário há uma presença maligna embora tenha a forma de uma
criança embora possa ser eu e concluo mais tarde que sou porque me encontro nela e assisto os meus olhos observam (câmara subjectiva) e sinto o medo a crescer dentro e sinto que o medo me agita e ao meu
corpo também por consequência como entidades separadas sempre tive muito medo dessas coisas malignas que
se escondem e que não compreendemos bem que podem tomar a forma de qualquer
coisa na penumbra mas na verdade ainda estou no sonho e embora o corpo
reclame já a saída avanço sinto que aquela presença má se move sub-reptícia e
sinto o medo latejante tão sub-reptício quanto ela aproximo-me da cama e ali
está a boneca de trapos da minha infância oferta da Nani é na verdade a boneca
da minha irmã igual à minha mas com um padrão de vestido e chapéu a condizer distinto de um verde pontuado por pequeninas flores silvestres enquanto a outra vestia púrpura com flores largas exibicionistas de salientar que nunca me agradaria a
boneca que me fosse confiada mas sempre a outra e ali está a boneca cuidadosamente
encostada às almofadas inerte e a sua visão causa-me um calafrio não era
suposto encontrar-te nesta história que não serve a minha infância a menos que
tenham sido convocados os medos mais antigos aqueles que me fazem ainda hoje
espreitar por trás do ombro e pensar que não devia estar assim de costas
voltadas para o mundo tendo apenas a parede branca diante talvez não muito branca mas ainda assim mais branca do que a penumbra atrás de mim onde se
esconde o mundo e repara que o sonho já vai miúdo e a boneca não lembro mais ao certo qual a posição em que a encontro e nem tão pouco me apercebo como veio
parar-me às mãos e como a olho com ressentimento e espanto e medo maldito medo
que aqui não encontra lágrimas é um medo fundo lamacento ai a minha meninice ao
olhá-la cresço em perversidade como se eu própria fosse a boneca e agora que a
tenho em meu poder decido sentá-la na barra aos pés da cama e há um espelho do
outro lado e na verdade só lá vejo a boneca e levanto-lhe o
vestido e procuro abrir-lhe as pernas para descobrir o que ali se esconde e a
maldita resiste-me oferece-me uma resistência que me apavora e tremo e o medo
agora tem o tamanho de um quarto


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