domingo, outubro 28, 2018

não sei





não sei dizer-te quando enlouqueci, porque quando me apercebi já era louca. primeiro fui perdendo o medo, depois a vontade de o desenhar, depois perdi a idade e perdi também a faculdade de me olhar, como se me desintegrasse e tornasse a cada passo mais etérea

ao mesmo tempo iam-me detendo mais os pormenores, os sons que me chegavam da rua vinham aumentados e traziam cada um a sua história, a criança que gritava no jardim, o saxofonista que tocava amplificado junto da porta lateral da igreja das luzes apagadas, o recepcionista do hotel que à noite se transformava em drag queen e fazia performances no burlesque onde nos serviam bebidas extasiantes que nos levavam a subir ao pequeno palco para nos representarmos.

ao mesmo tempo enamorava-me de cem homens e odiava-os por me tomarem o tempo de me reaprender, ao mesmo tempo procurava sentir como funcionava a minha estrutura por dentro, concentrava-me e sentia o sangue a subir-me às têmporas, concentrava-me e ouvia-as a latejar, concentrava-me e ao grito fino da criança juntava-se outro e brincavam no parque com uma bola que não era redonda enquanto na esplanada os homens bebiam uma cerveja pouco fresca e abria-se a porta de um camião e saiam de lá desfilando metades de porco e no hotel

tentavam abrir-me a porta do quarto e quando lá chegava arrancada pelo barulho o homem voltava-se para mim e dizia-me, como conseguiu abrir essa porta se eu é que tenho a chave e estou aqui do lado de fora e eu, não fora ter enlouquecido, sairia desconcertada abotoando as calças à pressa, porque se têm de abotoar a algum lado, e melhor à pressa do que a uma casa qualquer, quem quer uma casa onde se abotoar?

Eu tinha comprado as botas ao estilo militar porque queria introduzir uma disciplina rigorosa e do tipo masculino, posso dizer assim, um louco não observa políticas nem regras sociais, desconhece preconceitos e cria outros.

Com o tempo até as palavras se desacertaram num pretérito imperfeito futuro.

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