sexta-feira, outubro 05, 2018

aquele momento em que interrompes a mastigação

Acabo de me lembrar que há uns dias atrás inadvertidamente comi larvas. Eram brancas e pequeninas, não teriam mais que um centímetro de comprimento, dois milímetros de diâmetro e não o fiz para imitar nenhuma prima dona testando a elasticidade da mente sobra-me aliás apenas a repugnância desse instante mas não foi exacto o que senti porque naturalmente invadiu-me um nojo imenso, maior do que o nojo que se sente quando na língua se enrola um cabelo que nos chega de um prato confecionado em restaurante de cuja cozinha se tem apenas suspeita e onde operam criaturas suadas e vingativas. mas não foi exacto o nojo que senti, não foi imediato. Encontrava-me só sem pensamentos e hesitei e essa hesitação fez crescer o nojo, mas o nojo não é exacto. A hesitação fez-me questionar a natureza do nojo. deveria continuar a comer, como se nada fosse, ignorando aqueles pequenos seres na superfície côncava do peito do frango e que eu não teria identificado não fora ter surpreendido um fora do lugar? Chegara-se à bordadura do prato numa tentativa vã de resistir à cozedura. agonizaram no microondas, num minuto, possivelmente menos, mas tendo em conta que nem um centímetro contavam deve ter sido muito, na minha boca terão durado um pouco mais. Mas não é exacta a visão, a que não quis tornar, porque a afirmação da coisa serviria apenas para exasperar a repugnância e ampliar a frustração, mas de onde me vem o nojo, porque ninguém sabe, ninguém me olha, e se eu não o disser então as larvas nunca existiram, e como enganei o olhar podem muito bem ter sido apenas fruto da minha imaginação, que confesso é curta, como a larva, pouco menos de um centímetro, ela inteira. mas a imagem das larvas ficou. uma delas na bordadura do prato. 

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