quarta-feira, outubro 11, 2017

o falcão caído


desarrumou os objetos que estavam pousados na cómoda, o cone de perfume sem fundo, o gancho com desenhos florais que desapareceram na véspera, o anel em espiral, a concha azul cravada de cracas, como pequenos vulcões atracados numa ilha, tomando gradualmente a forma de longos penedos riscados, uma argola pequenina perdida na turba, uma tesoura de cabo negro, uma etiqueta cortada onde se lê Bangladesh, 80% poliéster, 20% algodão, uma caixa de fósforos de cozinha, um pacote de Camel azul mais vazio do que cheio, como no filme.

em criança era sociável, extrovertida e alegre, tinha um riso desbragado que aborrecia o avô, pouco dado a excessos, embora por vezes... se enternecesse com aqueles olhos risonhos que lhe lembravam os do seu rapaz, o Caçula.

Tornara-se próprio dos seus objetos respeitarem as linhas que desenhava mentalmente, barreiras imaginárias contra a desordem e se de um filme se tratasse afastaríamos agora lentamente a câmara e compreenderíamos o que ela não consegue ver àquela curta distância, desenham um padrão geométrico veneziano, e porquê veneziano? para elevar o discurso, naturalmente.

mas voltando aos objetos...

domingo, abril 02, 2017

parou

                                                     

                                              parou nua  
                                     parou no limiar
                     parou no limiar da porta
   subiu as escadas e parou ofegante