desarrumou os objetos que estavam pousados na cómoda, o
cone de perfume sem fundo, o gancho com desenhos florais que desapareceram na
véspera, o anel em espiral, a concha azul cravada de cracas, como pequenos
vulcões atracados numa ilha, tomando gradualmente a forma de longos penedos
riscados, uma argola pequenina perdida na turba, uma tesoura de cabo negro, uma
etiqueta cortada onde se lê Bangladesh, 80% poliéster, 20% algodão, uma caixa
de fósforos de cozinha, um pacote de Camel azul mais vazio do que cheio, como
no filme.
em criança era sociável, extrovertida e alegre, tinha um
riso desbragado que aborrecia o avô, pouco dado a excessos, embora por vezes...
se enternecesse com aqueles olhos risonhos que lhe lembravam os do seu rapaz, o
Caçula.
Tornara-se próprio dos seus objetos respeitarem as linhas
que desenhava mentalmente, barreiras imaginárias contra a desordem e se de um
filme se tratasse afastaríamos agora lentamente a câmara e compreenderíamos o que
ela não consegue ver àquela curta distância, desenham um padrão geométrico veneziano,
e porquê veneziano? para elevar o discurso, naturalmente.
mas voltando aos objetos...
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