terça-feira, novembro 13, 2018

Maria


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Chamo-me Maria, como a minha avó. Ela tinha perto de 60 anos quando morreu, não cheguei a conhecê-la, no momento em que partia chegava eu. Trago o seu nome e, sem querer, a sua sede e o desconforto também. A raiva que sobrou dos outros. Maria era amarga todos os dias, odiava os filhos, a todos com igual proporção e violência: um bando de putos ranhosos e borrados que rondavam por ali com as galinhas, e que lhe tinham sido arrancados a ferros à conta sucessiva dos estupros. Maria nunca, mas nunca desejou o homem que lhe foi aplicado, soma pequena das propriedades da aldeia que assim se multiplicaram: a família. Na véspera da morte dele levou-lhe à cabeceira a última refeição, uma cebola crua com sal, e regressou ao banco da cozinha onde adormeceu com a cabeça entornada junto da caneca.

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