- Tânia!
- Como se chama?
Sorri-me pela primeira vez.
- A senhora é bonita demais para não pintar o cabelo.
- 10 €.
- Quanto é?
Quando me levanto, espreito de novo as marcas da noite nos pés dos olhos.
Procura mostrar-me o resultado através de um espelho ridículo embora eu tivesse preferido não olhar.
Sacode os últimos cabelos dos meus ombros.
Olha-me com um ar um pouco horrorizado.
- Prefiro deixá-lo embranquecer, digo com pouca determinação. Coro estupidamente, se ela insistir muito ainda me convence...
- Não pinta o cabelo?
Que mamas lindas tens, redondas brancas e macias, penso, quando ela se inclina para me ajeitar a franja.
Aqui não se fia a ninguém, grita a parede, e um sapo gordo de barro espreita sob a mesinha da entrada, lá fora corre a marcha fúnebre que desaguou da igreja e desaparece no espelho onde encontro as olheiras fundas, o meu corpo balança ligeiramente às mãos de um secador impiedoso que me esquenta as orelhas.
És cá das minhas, miúda, cara fechada, nenhuma palavra, e ela segura-me a cabeça com firmeza, quatro ensaboadelas rigorosas que quase me partem o pescoço contra aquela bacia que parece uma câmara de tortura.
- Sim, sem um sorriso, sente-se.
- Bom dia, é possível cortar o cabelo?
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