domingo, setembro 23, 2007

o sangue da noite sempre foi negro

era noite escura, a música troava ao sabor da leve tontura, ria-se, curvava-se sobre a embriaguez, quase cantava, a língua tingida de negro, rígida, afilada, anestesiada pelo xarope de amora.
sabes a amora amarga, disse languidamente, também ele tomado pela cor.
enlaçava o dedo numa mecha de cabelo, brincava com ela, roçando-a ligeiramente na orelha, sorria, os olhos cintilavam.

espera, não vais já embora, pois não?
podíamos sair daqui, podíamos ir dar uma volta, fingir que a praia é já ali e ir até lá, ficar a ouvir o mar, está tão bom tempo lá fora.
cheira a queimado, sentes? sente-se a maresia para além das cinzas.

as vozes murmuram no caminho.
perdi o talento, eduardo, perdi o talento.

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